O dia em que conheci Gugu Liberato em Tokyo



          Semana passada fui surpreendida na quarta à noite por uma notícia sobre o acidente que o Gugu tinha sofrido na casa dele em Orlando. Primeiro, eu fiquei sabendo que ele havia subido em uma escada para montar uma árvore de natal e caiu batendo a cabeça na quina da mesa da sala, imaginei que fosse verdade porque as árvores são muito altas nos USA (Estados Unidos). Uns falavam que ele tinha falecido e outros diziam que ele estava em coma em um tipo de unidade de tratamento similar à nossa UTI e que a mãe dele de 90 anos já tinha ido pra ver ele nos Estados Unidos. 
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Depois, fiquei sabendo que, na verdade, ele tinha subido para consertar o ar-condicionado, e pisou em um chão de drywall que acabou rompendo, e então acabou sofrendo a queda de quatro metros. Com certeza, deveria estar muito frio por lá, já que é época de inverno nos Estados Unidos, e como já estive lá em uma época como esta, posso afirmar que quando é frio, é congelante. Portanto, acredito que ele tenha ido consertar até mesmo um heat (aquecedor), por conta do frio. Logo, entendi que não tinha mais o que fazer, mas a notícia da morte do Gugu Liberato saiu somente na sexta-feira.       
Sou uma pessoa que quase não assisto muita televisão, e quando assisto, prefiro ver os programas da Rede Globo e quase nunca vejo outros canais, principalmente programas de auditório. Por isso, os programas do Gugu já não via há muitos anos porque morei por muito tempo no Japão e quando voltei não tinha interesse de assistir programas de auditório. Só tenho tido tempo para assistir aos domingos e na maioria das vezes estava estudando com livros didáticos, lendo outros livros ou até mesmo fazendo outra coisa. No entanto, quando ouvi falar sobre o acontecido com o Gugu, me veio à tona uma passagem no Japão quando o conheci em 1990. Na ocasião em que ele foi receber o prêmio lá, de melhor animador, que só fiquei sabendo durante os noticiários sobre a morte dele, na época não sabia exatamente porque ele tinha ido até lá, mas com os noticiários entendi o porquê.


          A primeira vez que fui ao Japão tive contato com dois tipos de brasileiros, os que viviam no Japão porque tinham casado com japoneses e por isso moravam lá e tinham o visto permanente e o outro de pessoas que só tinham visto de trabalho como eu, visto esse que só permitia ficar lá durante 6 meses e depois tinha que voltar para o Brasil para entrar outra vez com o visto trabalho renovado.  .
Eu trabalhava como coreógrafa em uma casa que era pioneira em levar pessoas para o Japão para levar a cultura brasileira, tanto a dança quanto a comida. O Japão estava podendo conhecer um pouco do Brasil por meio daquilo que nos passávamos em relação às danças folclóricas. Na época a Lambada era o sucesso do momento, então eu coreografava e dança Lambada aproximadamente três vezes ao dia. Além disso, também tinha o Samba-enredo, o Pagode, a Bossa-nova que era um ritmo que eu não tinha tanto contato no Brasil e passei a ter no Japão porque eles gostam muito desse estilo musical. Trabalhava em um bairro de Tokyo que se chama Roppongi (六本木 - seis árvores), esse lugar era o lugar mais famoso para se divertir, comer ótimas comidas, ver shows de todas as formas e era com certeza o lugar que mais tinha Pubs por metro quadrado, era fantástico. Ali conheci o Gugu Liberato, em um pub chamado Pip's.


          Antes de o Gugu ir para o Japão, ele ligou para a casa de um amigo meu e ele falou com a mãe deste meu amigo dizendo que queria falar com ele porque sabia que ele estava no Japão e ele queria encontrar com ele. Então, meu amigo que era o meu parceiro na Lambada, ligou para o contato que ele deixou e marcaram um encontro nesse pub, onde eles iriam conversar a respeito de trabalhos e informações sobre o Japão que o Gugu gostaria de saber. Ele foi com uma antiga ex-funcionária dele que era coreógrafa também. Eu trabalhava em Roppongi e ela em Shinjuku (新宿区 - Nova Pousada). Quando o Gugu estava no último ou penúltimo dia em Tokyo, meu amigo entrou em contato com ele, e então, eles marcaram de se encontrar em um dos lugares mais incríveis para conhecer pessoas, se divertir, ouvir uma boa música, entre outras coisas.

        Na época, o que bombava era este pub chamado Pip's, uma vez que esse era o point de todos os brasileiros. Ali conversávamos, encontrávamos pessoas que já tínhamos visto e que nunca tínhamos visto, era um  lugar pra se divertir mesmo. Quando conheci o Gugu, foi muito legal porque estava muito encantada com o Japão, em especial com Tokyo que naquela ocasião estava sendo aberto para o mundo, toda aquela cultura, diversidade gastronômica e muitos outros entretenimentos. Eu vivia andando de metrô e conhecia todos os lugares mais importantes e interessantes de se ver.

Me lembro que eu ia sozinha e ficava fascinada. Tinha uma rua em Harajuku (原宿 - hospedagem de campo) que era igual a Avenida Paulista, que aos domingos ela fechava e as bandas de rock e grupos de danças se instalavam lá e era fascinante porque a cada 10 metros era um show à parte, uma performance mais interessante que a outra. Ouvi falar que muitos grupos de rock que hoje são famosos surgiram daquele lugar.


Achei interessante falar para ele sobre o que estava acontecendo em Tokyo porque eu nunca tinha visto aquilo na minha vida e nem em programas de televisão. Então, disse para ele tudo aquilo que eu estava acostumada a ver aos finais de semana. Ficamos conversando por muito tempo e a amiga dele ficou até brava porque ele estava ali pra se divertir e não perder tempo com uma pessoa qualquer, e que eu não estava deixando ele interagir com as outras pessoas.
Particularmente, nem sequer eu havia entendido o motivo pelo qual ele havia ficado o tempo todo conversando comigo. Somente agora, eu pude compreender que ele era um pessoa que olhava à frente de qualquer um, e que via o futuro. Ele disse pra mim que se eu quisesse, poderia ser a agente dele no Japão e que ele poderia colocar um Fax na minha casa para eu mandar todas as notícias do Japão para ele. Além disso, ele chegou a me dar o seu próprio telefone e agradeceu, e depois foi embora com o agente dele e com a amiga que tinha levado ele até ali.


No dia seguinte, minha amiga saiu com ele e com o agente. Ela disse que ele (o agente) estava muito bravo porque o Gugu tinha mudado todos os planos e queria visitar os lugares que aquela menina do pub tinha falado para ele. Nem percebi que ele tinha anotado os nomes dos lugares. O agente dele levou, meio contrariado, porque os planos eram outros. Infelizmente, eu não pude fazer o que o Gugu me pediu porque morava em um quarto e o apartamento era dividido entre mais pessoas, fazia parte de um grupo e o nosso contrato de trabalho era só por seis meses. Então, devido à dificuldade que naquela década tínhamos em relação à informação tecnológica como: celulares, computadores e até mesmo smartphoneseu não consegui concluir o que ele pediu para eu fazer, porque nem mesmo um Fax eu conseguiria colocar onde eu morava, visto que este aparelho ainda era algo de outro mundo, mesmo morando do outro lado do mundo, pois ainda sim, era difícil entrar contato até mesmo por telefone.
         Semanas depois, eu liguei para o Gugu e agradeci pelo convite, mas não teria condições devido à  dificuldade de comunicação e os problemas que acarretaria. Era realmente muito complicado. Meus amigos me falaram que eu tinha perdido uma grande chance na vida, mas eu tinha consciência de que não daria certo.
         Bem, com tudo isso que tem acontecido em relação à morte dele, pude lembrar de mais uma história interessante que passou pela minha vida e dizer que as oportunidades aparecem até em lugares que você não imagina. No meu caso eu só não consegui agarrar uma oportunidade como esta porque no início da década de 90, ainda não tinha acontecido essa revolução digital que mudou o mundo por completo, facilitando ainda mais os meios de comunicação, dando uma qualidade de vida melhor para todos.




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Para finalizar, deixo meus sentimentos a toda a TV BRASILEIRA, telespectadores, amigos e principalmente ao familiares que perderam um grande profissional, amigos, parceiro, companheiro, filho, pai e familiar. 




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